CAMARÃO NO FEIJÃO

Sábado, dezesseis horas. Tarde, tarde para adiantar o almoço de domingo. Se pisco, nem janta tem hoje. Melhor correr. Quem fica para comer?

CONTOSLITERATURA

Maruza Assis

6/22/20269 min read

Impressão minha ou eles montaram as barracas mais cedo hoje? O que isso importa? Correr um tanto mais para pegar tudo fresco. E pensar naquele pescado que foi todinho pro lixo... Dois quilos e meio de peixe estragado. O nariz chega arde, cheiro maldito! Esse carrinho também não ajuda. Pedi para o Agnaldo tantas vezes: custava trocar a roda que não roda? — Bom dia, seu João. Minha moranga...

— Tudo bem, dona Silvana? — O feirante vira-se, curvando o corpo até a caixa plástica, e levanta-se com a abóbora nos braços. — Olha que belezinha! Seus camarões vão fazer sucesso nessa cumbuca!

— Linda mesmo. Mas como o senhor sabe que é para o camarão? — Levanto a sobrancelha esquerda, estendendo uma nota de cinquenta.

— Cebola, tomate, pimentão e pimenta, completa? Ou vai querer o troco? — pergunta ele, jogando três cebolas na balança.

— Pode separar, por favor. Só tira a dedo-de-moça, que eu ainda tenho em casa. Troca por coentro. Quanto ficou tudo?

— Os camarões? O Marcão falou que a senhora pediu para separar — seu João aperta os botões da calculadora. O bipe agudo e espremido do aparelho é abafado ao anúncio: — O quilo é dez! O quilo é dez! Leva tomate para salada, madame! — Voltando para mim: — Quinze fecha, dona Silvana!

Busco na carteira as duas notas e as entrego ao feirante.

— Obrigada, seu João. Espero que seu amigo Marcão não me decepcione hoje. — Aceno e viro de volta ao corredor da feira.

— Confia, dona Silvana! Se azedou, não foi daqui… o camarão tá fresquim, fresquim! O quilo é dez! O quilo é dez! — repete aos passantes.

— Sei… Até semana que vem! — respondo de costas, apresso o passo.

"Vamos morar perto de tudo, amor, você vai ver que maravilha: mercado, farmácia, escola dos meninos..." Uma maravilha mesmo, só queria saber para quem. Agnaldo foi certeiro nos argumentos com esse papo de "tudo perto". Aliás, qual a vantagem daquela bosta de carro na garagem?

Farinha, leite condensado, creme de leite, leite de coco... Não vai ser eu quem vai negar o manjar da Júlia. No que depender de mim, sobremesa congelada, essas coisas cheias de conservante não entram em casa.

Deus do céu, que fila é essa? Ainda bem que levei os camarões mais cedo.

— Não, moça, este caixa aqui não é para poucos itens — oriento uma senhora que carrega um fardo de papel higiênico e uma garrafa de água sanitária. — É aquele ali, ó, número 35, ao lado do preferencial.

Puxo o celular da bolsa enquanto avanço na fila.

— Agnaldo, me pega aqui no mercado. Aproveitei a promoção, tá pesado demais para levar sozinha. Sim... tá. Te espero na porta, tchau.

Ele carrega as compras até o balcão da cozinha. Ainda de costas, avisa que é dia de ducha no Corolla e tesoura no cabelo, ele sai.

Sábado, dezesseis horas. Tarde, tarde para adiantar o almoço de domingo. Se pisco, nem janta tem hoje. Melhor correr. Quem fica para comer? Nada de deixar pedirem pizza. Vou apressar, uma sopa resolve.

Coloco os legumes de molho no vinagre enquanto enxaguo o banheiro já ensaboado. Júlia atravessa a sala em direção à saída. Estendo o pescoço pela porta do banheiro, com o balde na mão.

— Filha, preciso que ajude a...

— Na volta, mãe, na volta!

— Seus primos, sua tia... amanhã eles vêm cedo...

— Eu sei, mãe, já sei. A Bia tá esperando, combinamos manicure.

O portão bate.

Terminado o banheiro, passo reto pelo quarto dela. Com a Júlia eu não me aborreço; ao menos a primeira veio menina, ergo as mãos aos céus.

— Rafael? Não acha que tá um pouco tarde para levantar, meu filho?! — esmurro a porta do caçula.

— Calma, mãe, já vou — a voz vem bocejada, abafada pelas cobertas.

Agora é limpar o camarão e depois avançar nessa abóbora que está olhando para mim na bancada.

Enquanto estou na pia, Rafa me assusta com um beijo estalado. Desvio, limpando o rosto com o ombro.

— Sai pra lá com esse bafo, moleque! Isso é hora de acordar? Todo sábado a mesma coisa.

— Bom dia para a senhora também, sua linda. Cheguei tarde da facul...

— Da facul ou da farra? Pensa que eu não vi a hora?

— Pô, mãe, a senhora não alivia uma, hein? Eu trabalho e estudo a semana inteira, um diazinho de rolê não mata ninguém. — Ele entra no banheiro.

— Sei... Aproveita que você está bem vivo e veste logo uma bermuda, não quero saber de marmanjo de seminu pela casa. E já separa as roupas sujas, essas cuecas freiadas para lavar, dá um jeito nesse quarto, Rafael! Tira pelo menos o lixo para eu passar o pano! — elevo a voz.

O som do chuveiro ligado e o grave do funk atravessando as paredes do banheiro me devolvem à cozinha. Volto para a pia, encaro a abóbora de frente e, com a faca em punho, enterro a lâmina na casca, serrando a tampa do vegetal com força.

Abóbora e camarão limpos, feijão na pressão. Agora, o manjar.

— Vai morar nesse banheiro, Rafael? Olha o fumaceiro!

Uma nuvem pesada carrega a mistura de cheiros: perfume masculino; pós-barba; xampu e sabonete; exalando pelo corredor. De jeans escuro, camisa branca bem passada e tênis novo, Rafael vem simulando passinhos de dança até mim.

— E esse cheirinho de feijão, dona Silvana? — diz, levantando o queixo e respirando fundo.

— E essa estica toda, seu Rafael? — Seco as mãos molhadas no avental. Que homão lindo é o meu filho. O coração chega a apertar quando lembro dele e da Julinha correndo por esta cozinha. Orgulho, medo e saudade entrelaçam meu riso acanhado.

— Curtiu? — Ele rodopia à minha volta.

— Rafael, o seu quarto... Amanhã seus primos vêm. Você sabe que entram em tudo quanto é lugar, reviram tudo. Não é só pela sujeira, meu filho, depois você fica me torrando a paciência porque mexeram nos seus bonecos...

— Tá bom, mãezinha, pode deixar — estalando um beijo na minha bochecha. — Eu volto num pulo, só vou ali na casa do Klebinho ver o jogo. Na volta eu arrumo, juro.

— Por que você não arruma primeiro, Rafael? Eu te conheço, vai voltar tarde, vai acabar deixando…

— Relaxa, confia em mim. — Mais um cafuné e um gingado até a porta da sala. Ele tranca o portão por fora. — Te amo, mãe!

Entro no banheiro para recolher o tapete. Tudo molhado. O chão que eu deixei sequinho, ensopado. E as roupas jogadas fora do cesto? Quem aguenta isso, meu Deus do céu?

No quarto dele, a lixeira transborda, toalha úmida jogada em cima da cama ao lado de pratos vazios com resto de lanche. Roupa limpa e suja num só monte da cadeira. Decido seguir a lógica dele: deixo para depois. Ou melhor: se o cara de pau não der um trato nessa zona, amanhã eu tranco a porta e nem ele entra.

Às dez horas do domingo, o som estridente da buzina do meu cunhado sobressalta à cozinha.

Ouço minha irmã dar uma bronca no filho antes mesmo de bater a porta do carro. Meu desespero aumenta: nada de o Rafael acordar. Júlia, pelo menos, já está de pé e me acode na cozinha.

Recebo minha irmã e sua escadinha que invadem a sala. Agnaldo se antecipa, cerveja extra na mão, cumprimenta o concunhado; os dois se instalam pela garagem.

Ao pé do fogão, começa a ladainha da minha irmã sobre mensagens "suspeitas" no celular do marido. Pelo jeito que tem colega nova no escritório dele. A voz dela me atravessa de ouvido a ouvido enquanto me viro para a geladeira. Tomate, cebola, cheiro-verde…

— Pega a faca na gaveta de cima, por favor? — peço. Termino de cortar os tomates da salada; minha irmã me persegue pelo cômodo com as suas queixas. Ela bem que poderia me contar uma novidade, ou ao menos descascar o alho para o meu arroz.

Júlia passa; ela lê a minha súplica no olhar. Minha filha pega os pratos e os leva para a mesa improvisada da garagem. As crianças correm e gritam pelo corredor, batendo com força na porta do Rafa, que finge não escutar. Júlia volta para pegar os talheres e eu estico o pescoço em direção ao corredor de novo. Ela entende o recado, vai até lá e chama o irmão discretamente. As crianças continuam esmurrando a porta. Quando ele finalmente sai, sonolento, Júlia tranca a porta do quarto por fora antes que os primos invadam.

— Calma aí, criançada, bora ver um desenho na sala... Oi, tia!

Fecho a cara para o descarado, mas respiro aliviada com as portas trancadas.

— Abram espaço que o camarão na moranga vai passar! — anuncio, atravessando a sala com a bandeja pesada do prato principal.

Meu cunhado enfia o celular no bolso num gesto apressado. Dá um tapinha de leve no meu ombro e puxa a perna com um riso amarelo após levar um beliscão na coxa. As crianças grudam a mãe pelo braço; ela as acomoda do outro lado da mesa e todos se sentam.

Rafael e Júlia trazem os refrigerantes e o manjar. Volto para buscar o arroz e a salada.

— Feijãozinho não tem, amor? — Agnaldo pergunta da ponta da mesa.

— Quem come feijão com um prato chique desse, cunhado? — caçoa minha irmã.

Júlia a olha com um sorriso fechado.

— Eu e meu pai somos viciados em feijão — defende Rafael.

Respiro fundo e volto à cozinha entregando assim, a panela de feijão. Minha irmã e as crianças já estão servidas. Meu cunhado, joga duas conchas cheias de feijão por cima do arroz e pesca o camarão cremoso na cumbuca da moranga. Ele recria uma pintura esquisita para a minha obra em seu prato.

Meus filhos comem um ao lado do outro. Sento-me ao lado do meu marido.

— Os temperos da salada, os molhos... — ensaio me levantar de novo.

Agnaldo segura meu braço, impedindo o movimento.

— Eu pego, amor. — Ele vai até a cozinha e volta com os temperos e mais duas latinhas de cerveja.

As crianças mal tocam na comida. O menorzinho cospe o camarão na mesa; os outros dois só comem o caldo do feijão misturado ao arroz, avançam no manjar. Minha irmã os larga sentados no chão da sala em frente à TV; Rafa coloca um desenho, há sossego por alguns instantes.

Sobram elogios ao almoço enquanto os três homens zombam dos times adversários na garagem. Meu filho rasga seda para a minha comida mais uma vez, me dá um beijo na testa e desliza para o banho. Júlia, que não tirou os olhos da tela do celular o almoço inteiro, recolhe a louça aos poucos e adianta o que dá na pia. Em seguida, os dois dão um tchau de longe, atravessam o portão e somem no domingo.

Gritos na sala. Um dos pequenos invade o quarto do Rafa; os outros dois entram atrás e voltam arrastando uma cueca suja pelo meio da sala. Agnaldo e meu cunhado caem na risada. Minha irmã tenta disfarçar. O sangue arde em minhas bochechas. Avanço, tomo a cueca da mão do menino, franzo a testa e bato a porta do quarto com força.

— A sobremesa acabou mesmo? — meu cunhado insiste, olhando para a minha irmã.

Ela olha para mim; eu levanto os braços e balanço a cabeça. Levo o restante das louças para a pia, retiro a toalha manchada da mesa. Minha irmã volta a desfiar as reclamações do casamento em voz baixa, enquanto o marido fala mal dela num canto para o Agnaldo.

O caçula deles começa a chorar, pedindo colo. Meu cunhado despede-se, agradecendo pela milésima vez. Minha irmã recolhe as crianças, reclamando do vento, da hora, da vida.

O portão fecha. Despenco no canto do sofá. Abaixo o volume da televisão. Agnaldo respira fundo e solta os ombros voltando pela garagem. Faço menção de me levantar.

— Vou pegar a vassoura para dar um jeito nesse quintal antes que você guarde o carro.

Ele estica o braço e me empurra de volta com um gesto suave, quase carinhoso, contra o estofado.

— Fique aqui, deixe que eu ponho a comida na geladeira, descanse. Depois limpa lá fora. — Ele aponta para o banheiro com o indicador. — Só vou esvaziar pra saideira.

Desligo a TV com o controle. Puxo É Assim que Acaba da estante. Na terceira ou quarta página, o mundo desaparece. Um apagão completo.

Acordo com uma pontada violenta na coluna. Tateio no escuro da sala, meio sentada, meio deitada, tentando calçar a sandália perdida com os pés. Aperto o botão do controle; o clarão da tela da TV pisca no painel: 00h10.

Um ronco cadenciado e pesado vem do meu quarto. Na garagem, o vazio desordenado, nosso carro dormiu na rua.

O livro largado no chão. Antes de colocar os pés na cozinha, um cheiro forte me puxa pelo nariz. Varejeiras zunem alto sobre a panela semitampada na bancada. A pressão, todinha perdida.

Maldito sono.

Ao lado do feijão empesteado de larvas, o camarão que ia para as marmitas, repousa na abóbora.

Podre. Podre.