Fatos reais baseados em ficção: Humana-mente
O ensino da escrita, afinal? Concluí na alfabetização. Vírgula a mais, um travessão de prática... Pontos em exercício, fervidos no convívio com a palavra, com a vida e dos banquetes que dela me sirvo, e, à seu gosto, sou servida!
ENSAIOSLITERATURA


Sigo acumulando incertezas quanto à qualidade de minha escrita. Vez ou outra, surge alma disposta a abraçar uma linha ou duas, o que me acalanta a ansiedade. Recuso a ideia de me profissionalizar abrindo nova matrícula.
Mais um curso, uma formação a mais, outra oficina? Interrogam-me com certa frequência…
Interrogam.
Nem são tantos assim (justifico, sem obrigação). Em grande parte, abandono-os pelo caminho…
Prima-irmã dos embates filosóficos sobre “os limites do humor” ou sobre “o que é arte”, outra questão cuja natureza mordisca os entusiastas da criação e, por pertencimento, também afeta minhas frouxas convicções: “É possível ensinar a escrita de ficção?”
Das primeiras questões, muito há que se discutir, desconfio… em vão! Posto que mera tentativa de resposta invalide a natureza criativa e encapsule o que não tem resolução.
Quanto a esta última, porém, fio-me no decreto do que um dia tomei como verdade: “a arte da escrita de ficção não se ensina”; todavia, aprender? Ah, aprender, sim. Nisto confio!
Escutei do próprio Mestre Assis Brasil, nas aulas da PUC-RS, o que releio em seu manual de criação literária. Belisquei tal verdade. E, desde então, saio degustando, curso aqui, outro acolá, no anseio de mentir um tanto mais.
Estudo para praticar, conviver, contemplar e exercer a escrita. Estudo para permanecer em estado de “aprendente”, exceto quando outras urgências me devoram. Talvez, cá esteja meu maior subterfúgio: continuar inventando qualquer história real, vingo-me assim, digerindo, digitando as coisas que me engolem os dias.
O ensino da escrita, afinal? Concluí na alfabetização. Vírgula a mais, um travessão de prática... Pontos em exercício, fervidos no convívio com a palavra, com a vida e dos banquetes que dela me sirvo, e, a seu gosto, sou servida!
E, antes de tudo, nasci escrevendo.
Na ingênua crença da fábula que me pertencia, ficcionei: Um Grilo Falante! O ano era o terceiro do fundamental. Pari! Fui parida no assombro da invenção de histórias escritas.
A professora de língua portuguesa aninhou-me na extinta COMPOSIÇÃO. Sem ponto de retorno.
Meu inconsciente infantil, refabulador e certo de possuir a autoria do conto italiano, acreditava na originalidade daquela criação feita a lápis pela mão recém-garatujeira. Eu adaptava Pinóquio à revelia.
Minha história! Minha criação.
Aos oito ou nove anos, eu já me sabia escritora. Já me sabia inventora das histórias de mentirinha.
E, de lá para cá? Morri tantas vezes.
Ao ponto de permanecer mais tempo morta do que viva, como concluiu Clarice em sua entrevista no Programa Panorama, da TV Cultura, levado ao ar no mesmo ano em que minha mãe me trouxe à terra.
Ela, a Clarice, morta a cada término de obra; eu, morta há quase quatro décadas, existindo tão somente pela sobrevivência.
Mas… tive lampejos.
Nasci novamente ao rabiscar as atividades de língua portuguesa e filosofia no ginásio. Fui crescendo ao me embrenhar em oficinas de dramaturgia; adolescente, brotei nos “Artistas da Terra”, Grupo de Teatro Amador na ZL Paulistana; juntos, esboçamos alguns ensaios de duas peças que minhas mãos trouxeram à vida.
Lampejos. Instantes de vida.
Ressuscitei, por fim, ao assumir o nome tatuado em meu punho esquerdo: “δραματουργία”. Quarentando, exilada, expulsa da capital. Período absurdo entre o pré e pós-pandêmico, beirando a distopia, sinto o golpe violento, minhas veias expostas vertem o sangue: “Abrakortina”!
No Grupo de Teatro, recém-criado em Cosmópolis, mais de uma peça concebemos. Invento de inventar um “Lobo medroso, amigo de uma Chapeuzinho sem cabeça, desafiado numa batalha de rap por Porcos abusados”.
Logo mais, o flerte com a escrita audiovisual. Retorno à capital, colhendo meu primeiro livro de ficção. Desde então, mantenho-me atuante, estudante; meio-escrevivente pós-apocalíptica, não sei ao certo.
Uma escrita embrulhada de rotinas, sufocada pelas obrigações civis, cozida por memórias e incômodos e, de quando em quando, ganhando passagem.
Dou graças por me sentir tão… tão assim…
Inadequada.
Desajustada numa civilização que se acomoda na desigualdade, na misoginia e em um milhão de fobias e "apartamentos" ilusórios.
Por princípio ou amor à estética, minha ficção alude, sem panfleto, a temáticas pautadas nas tantas identidades. E observa com cautela.
Até porque, mesmo aquilo que acredito ser meu, é perpassado por infinitas narrativas: de sangue, de corpo, de grupos, de passados...
E é nesta curva que a minha realidade talvez se misture à ficção.
Ao transformar um acontecimento, recrio uma memória ou, ainda, uma vaga lembrança que, volta e meia, retorna a emaranhar pensamentos.
Racionalizo? Talvez. Um processo terapêutico daria conta de organizar? Quem sabe, logo mais… Ou não também. O que me devolve à Clarice, penso, não sei o quanto pretendo eliminar meus "alicerces desalinhados".
Mais exposta que uma influencer de lifestyle.
Inferno!
Entrego esta volta atravessada por morte e ressurreição. Memórias contaminadas, sustentadas por convicções infantis, inseguranças juvenis e consciências em estágio de maturação.
Memória pirateada. Direitos autorais de uma mentirosa que não se reconhece assim. Quem se atreve a julgar?
Os que defendem com unhas e dentes suas próprias versões de uma briga num bar ou no trânsito e sua razão incontestável? Aos que rememoram as aflitas delícias de um primeiro amor cujo objeto nunca soube da existência? Ou os que remoem a mágoa plantada de acusação antiga?
Quantas histórias não se perpetuam assim, borradas nas mitologias familiares, corporativas, quiçá entre registros oficiais.
Se toda memória já carrega alguma imaginação, quando o escritor transforma uma verdade em ficção, está inventando uma mentira ou revelando uma verdade que a memória, sozinha, não é capaz de dizer?
Não sei se essa é a melhor maneira de me contar. É, talvez, a que me restou depois de tantas mortes.
Desconfio que toda mulher carregue seu próprio Grilo Falante. Essa m
emória pronta para virar verdade em ficções.