POEIRAS E AQUARELAS

O som da palavra tem cheiro de palavrão, cor de xingamento, palavra mal pronunciada, mistura de nome próprio com ofensa. Que poeta escreveria? “Regina Procrastina”.

CONTOSLITERATURA

Maruza Assis

5/16/20264 min read

Jorginho abre o guarda-roupas pela terceira vez, vasculha o oco do móvel, empurra a gaveta que teima em não se encaixar na ripa quebrada. Sobe a escada de alumínio com a vassoura em punhos, varre alguns anos de bolor ao chão. Uma coberta ensacada cai, e o kit de tinta guache espatifa no assoalho.

— Tudo bem, vou buscar a pá. — Varrendo os potinhos de plástico com o pó colorido, ele segue firme na missão.

— Sorte que estão secas... Fuçar em velharia dá nisso — resmungo eu.

Ele bate uma camiseta esgarçada no saco preto, coberto pela fina camada marrom.

— Essa eu não vou levar, não! Mãe, ajuda aqui. Segura pra eu empurrar de volta?

— E essa sujeira toda, Jorge? A faxineira só vem na segunda. Não dou conta, meu filho! — Nossas rinites atacam em sintonia; Jorginho gargalha, espirra e me engana.

— Calma, ainda não terminei…

— É o que você fala toda vez, menino!

— Mãe, eu não sou mais menino. E essa vai ser a última vez…

Soltei a escada.

— Desce logo daí. Estou indo ver a roupa na máquina…

Dei as costas, sem novos argumentos, limpei a lágrima, assoando o nariz no lenço de papel.

Diariamente, Jorginho me ligava: os vizinhos novos, a loja de conveniência, a farmácia, a lotérica, a fila da lotérica, os diálogos com estranhos. Tudo, ou quase nada, era pretexto para “fofoca”, como dizia ele.

O diariamente virou “o” semanal. Ao longo de três anos, mensal; rezo para que não chegue “o” anual. Ontem descobri que meu filho agora só toma café sem açúcar e, seguindo as estatísticas, em breve não saberei se virou vegetariano ou se ainda coça a palma da mão esquerda quando está nervoso. Deus me livre, não quero pensar nesse “em breve”…

PROCRASTINAÇÃO.

O som da palavra tem cheiro de palavrão, cor de xingamento, palavra mal pronunciada, mistura de nome próprio com ofensa. Que poeta escreveria? “Regina Procrastina”.

Andei procrastinando a visita ao psicanalista. Ou talvez procrastinar não seja o verbo mais adequado: menti mesmo, admito. Nunca fui. Nem Jorginho, nem mamãe, nem ninguém sabe dessa mentirinha. Ah, pro diabo todos eles!

Jamais deixei uma pia cheia; eles que me esqueçam. Desengavetado o palavrão: decidi destralhar.

Puxei uma mala embaixo da cama do meu filho. Na dúvida se o amarelo é natural ou encardido… não me importo.

Tem horas que duvido da minha própria maternidade, tamanha estranheza em lidar com um jovem sovina, com tantas manias. Se ele lembrasse desse mausoléu, teria vindo buscar. Se bem que, dadas as circunstâncias, pediria para eu mandar pelo Uber Entrega, com toda certeza.

Ignoro a proliferação de ácaros. Rinite atacada. Unf…

Escancaro a mala; entre álbuns incompletos e cadernos amarelados, recolho figurinhas da Copa de 2006. A mãozinha magra e suada apertando a minha durante a falta do Zidane. Os soluços ao gol do Thierry Henry. Senti uma compaixão que, até então, eu desconhecia... Jorge e eu juramos que nosso filho brilharia os olhos de algum olheiro no futsal; as quadras do Atlético desenhavam um futuro tão certo, que não cogitamos um plano B.

Não serei hipócrita, não hoje. Nutro certa gratidão por Letícia: a madrasta do meu filho semeou uma influência que minhas origens e minhas escolhas jamais poderiam lhe proporcionar.

A ARQUITETURA!

Nem em meus sonhos mais abstratos essa era uma trilha profissional desenhada para mim. Aliás, que profissão eu teria exercido se cuidar do filho do Jorge não fosse minha maior, minha única vocação?

O “incentivo” constante não espelhava a real intenção do meu ex.

Também não serei desonesta: Jorge soube ocupar o espaço dele. Minha inabilidade em dizer não talvez tenha escorado demais nisso. Fui deixando… deixando mamãe encher a bola do genro a cada almoço de domingo. Deixando a família me eleger como o exemplo de esposa irretocável. O que virá agora, os netos?

Deus que me livre da missão de velha babá. A julgar pelo empenho do Jorginho, a “vovó Regina” não passará de uma abstração longínqua.

O que penso? Sinceramente… Nenhuma falta me faz uma faxineira.

A sujeira envelhecida tem cor de alegria. Alguma coisa haveria de me sobrar.

Um único álbum e quase nada de figurinhas coladas. César Sampaio, Aldair, Dunga… Meu Deus, onde foi parar a convicção que forjamos nele? O que será que Jorginho pensa da escalação atual? César Sampaio, que fim levou?

Guardo essa relíquia para o meu filho? A julgar pela quantidade de figurinhas faltantes e os pacotes desbotados, lacrados, o lixo é o melhor destino, acho.

Corro ao banheiro, lavo o rosto e o nariz, esfrego a cara até ficar vermelha. Mais espirros, mais coriza. Diante do espelho, estico as sobrancelhas com os indicadores e volto a 2006. Meu Deus. Quando foi que surgiu essa cara de cansaço permanente?

E a cara de Letícia, naquela época? Em dois anos, a prima do amigo do Jorge, já estava amasiada com o meu recém-ex-marido.

Quanta idiotice. Um terapeuta, certamente, diagnosticaria:

RECALQUE!

Tolice. Tolice. Nos damos bem, ainda somos uma família, com novos agregados, é claro, mas ainda somos.

Arrastei a porcaria da mala para a sala. É um saco descer com esse trambolho pelas escadas, ver a papelada velha voando pelos degraus… Era só o que me restava. Unf…

Ok, ok. Escolha minha. Vamos lá.

Folhas soltas: um croqui da minha casa de infância, outro da lojinha de papai, o desenho da minha escola. Meu Deus. Eu não lembrava disso. Jorginho era tão pequeno quando dei esse caderno a ele: o lapisinho colorido contornando meus desenhos, a pintura sombreada por ele.

Como eu nunca vi isso?

O tempo todo esteve aqui, dentro desta casa que se tornou imensa à minha volta.

Esvazio o quarto do Jorginho, preencho com tubos e telas.

— Hey, seu malandro, tá na hora de devolver as chaves, não acha? — Jorginho chega sem avisar.

Fica alguns segundos em frente ao cavalete, espirra com o cheiro da tinta fresca, contempla o meu esboço: enxerga a varanda salpicada de impatiens coloridas, reconhecendo a casa onde nasceu. Ele deixa um convite de lançamento imobiliário na mesa e me abraça.