SILÊNCIO DE QUARTA

Eu grito para o sujeito na sala. Ele levanta e apressa-se a abrir a geladeira:

CRÔNICASLITERATURA

Maruza Assis

5/12/20262 min read

Steam rising from a stainless steel cooking pot as a hand lifts the lid on an electric stovetop.
Steam rising from a stainless steel cooking pot as a hand lifts the lid on an electric stovetop.

Até onde eu atino: jogo… jogo mesmo, jogo de verdade? É depois da novela das nove, só que o “time de plantão”, batalhão de ex-jogadores aposentados e suas panças, debate. Os tenores sufocam o som do pino da panela de pressão, a algazarra vinda da tela vestindo a maior parede da sala, ecoa na cozinha.

Meu caçula puxa a perna da minha calça ao menos três vezes, corre até a sala e volta com a orelha quente do peteleco do irmão e berra; o som é cortado:
— Filho da puta! Não acredito que esse corno não vai escalar o Rogerinho hoje!

Com o catarro escorrendo pelas bochechas e a fralda escura despencando da bunda, o pequeno chora e estica os bracinhos em minha direção.

Eu grito para o sujeito na sala. Ele levanta e apressa-se a abrir a geladeira: mais uma latinha despejada no copo Stanley. Com o celular no viva-voz, responde ao primo:
— Já tô indo, cuzão! Trouxe amendoim e o salaminho? Ô, amor, cadê a…

Sem me olhar na cara, revira o armário, levando duas tigelas estampadas. Ameaça levantar os olhos; a valentia dura menos de um segundo. Desiste do meu rosto e tateia as chaves penduradas no gancho da placa do Timão; o MDF treme ao som da sala.

Vai até o primo e o amigo no portão, recepção digna de conquista do primeiro amor. Um baldinho com três geladas, almofadas corintianas e recipientes lavados por mim estão prontos para receber os petiscos dos convidados. A resenha entre os comentaristas chegantes repe-se em ladainha.

O grunhido dos três barbados, somado ao volume máximo do narrador esportivo, anuncia a largada na semifinal do Brasileirão.

Na garagem da casa, Juninho levanta um berreiro, acompanhado pelo insistente som metálico do quintal vazio; o tombo na bicicleta de rodinhas acontece nesse instante. Suplico em vão para que entre. Volto à fralda do caçulinha; ele soluça, tremendo de frio.

A panela de pressão pulveriza o aroma do feijão queimado.

Gooooooool!

Quinze minutos, e o substituto do artilheiro do Bragantino desvirgina a rede diante dos meus adversários na sala.

Três marmanjos espatifam o edifício de madeira aos chutes: carrinhos, bonecos e Legos tomam ainda mais espaço pela sala, emaranhados ao xingamento da bisavó do juiz. O carpete da minha sala é embebido em cerveja.

Rio para mim enquanto atravesso a sala levando Juninho pelo braço:

— Hora do banho, filho. Amanhã ainda é dia de aula.
— Espera aí, amor, no intervalo eu cuido disso…

Primo e amigo se entreolham, dirigem-se à porta depois do segundo gol no primeiro tempo.

— Tchau, Isa! A Amanda falou que te liga.

Aperto os dentes e aceno com a cabeça.

— Amanhã de manhã eu tenho consulta — digo ao sujeito. — Vê como vai fazer para deixar os dois na escola.

Derrubo as pálpebras, erguendo os ouvidos ao próximo choro que virá do quarto ao lado.